Irmandade Inquisidora

segunda-feira, julho 03, 2006

Crónica das Folgas III

Empáfias.

Algures em 1924, num dia acinzentado de Maio encontrava-me nos montes secos de Évora, pastando o rebanho pachorrento e pensando em Sofia. Imaginava o retrato físico daquela absurda perfeição: um corpo esguio, intenso e maleável, seios agressivos, olhos vivos de pecado, uma beleza demoníaca, uma iluminação de loucura.
Em fantasias extravagantes e dignos de filmes de comédia, uma das ovelhas passou por mim, como se me estivesse a pedir algo. E como quem não quer a coisa, ficou de costas para mim. Notei nesse momento, que já me encontrava erguido e com tendências vaidosamente tolas, e eis que me perdi em invenções obscenas quando ouvi balidos lúbricos vindos da Ovelha. Olhei para o Céu nebuloso e convenci-me que Deus não me estaria a controlar, tirei os suspensórios e soltei as amoras.
Novos balidos de prazer misturados com apelos à Sofia imaginada, ecoavam pela pradaria Alentejana, e nesse dia quente perdi a candura adolescente de um rapazinho de oito anitos.

Voltei à vila, questionando a pureza dos meus actos e como tal decidi telefonar ao meu tutor Padre Fred. Encontrei uma lista telefónica, abandonada num canto escuro da casa onde me tinha instalado. Desconfiei da idade da Lista, ela já apresentava as páginas amarelas, mas com sorte encontrei o número do convento eclesiástico.
Telefonei ao Padre Fred que de imediato me congratulou pelos meus feitos. Enalteceu a minha postura matura e elogiou a minha tendência machista. Fiquei orgulhoso, afinal já era um homem.

No dia seguinte, deitado no tapete verdejante, via o céu solarengo e digno de um Verão perfeito. De súbito, uma aparição. Sofia ao longe encaminhava na minha direcção. Tinha um vestido branco, colado como borracha. Uma forte adstringência apertava-a contra si, endurecia-lhe o boleado das curvas. Ao aproximar-se murmurava um desejo de me possuir, um desejo de controlar o rapazinho infame, violador de ovelhas em tão tenra idade.
Ela, de gatas, ficou de costas para mim e esperou pelo meu ardor que só eu, o eleito divino, lhe poderia dar. Olhei para o céu e disse sorrindo de satisfação pessoal: «Deus, vê e aprende». Após isto a palavra amor ganhou novos sentidos e novos significados, aproximou-se da definição carnal que hoje todos nós conhecemos.
Agora sim, orgulhei-me por ter passado de homem para Homem.

(texto do Irmão Público)


 
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